Non scholæ sed vitæ discimus

domingo, 21 de agosto de 2022

O Povoamento do Maciço do Baturité

Sítio Coité, Aratuba-CE.

Logo a sudoeste de Fortaleza, capital do Ceará, a não mais de 60 quilômetros em linha reta, estende-se até a porção norte uma vastíssima região serrana. Esta engloba, atualmente, cinco municípios situados em paragens mais elevadas:


  • Palmácia, antiga Palmeira, a mais recente das urbes, cujo patrimônio ao orago São Francisco de Assis foi doado por Ildefonso Ribeiro Campos. Este era trineto do casal Antônio Domingues Alves e Agostinha da Silva Carvalho, fundadores da atual Boa Viagem e imortalizados nas memórias do Professor Ximenes de Aragão, entre outros insignes cronistas cearenses;
  • Pacoti, antiga Pendência, de fundação bem mais recente;
  • Guaramiranga, outrora denominada Conceição;
  • Mulungu, originado no Sítio Mulungu;
  • Aratuba, anteriormente conhecida como Coité e Santos Dumont.


Trata-se de uma serra imensa, de clima salubérrimo e baixa amplitude térmica.


As temperaturas médias atuais oscilam em torno de 25°C nos meses de estiagem e chegam a 18°C no período chuvoso e nos meses subsequentes de julho e agosto a temperatura mínima absoluta de 11,7°C foi registrada por um monitor de alta precisão em uma estação meteorológica automática alemã, da marca R. Fuess, instalada no Sítio Flexeiras, no município de Aratuba. Nessa medição, considerou-se a sensação térmica obtida eletronicamente, a qual compensa a velocidade do vento que sopra constantemente naquela região durante todo o ano, bem como a umidade relativa do ar.


A região é rica em nascentes de riachos e rios, corredeiras e cachoeiras, além de apresentar abundantes pastagens em seus sopés. Desde o século XVII, a Serra de Baturité tem sido uma verdadeira "tábua de salvação" para distintas gerações de sertanejos do sertão central e setentrional cearense, constituindo um oásis salvador em meio às secas cíclicas que constantemente dizimavam os rebanhos de gado vacum e cavalar.

Costuma-se afirmar que quase todos os ascendentes dos cearenses já se fixaram ou estiveram, em algum momento, circunscritos ao perímetro da região da Serra do Baturité.  Desde tempos remotos, são recorrentes as discussões sobre qual teria sido a primeira urbe a se estabelecer na cumeeira daquela cordilheira.


Historiadores e genealogistas eminentes e percucientes, como Pedro Catão e Vinícius Barros Leal, além de outros cronistas de escol, debruçaram-se exaustivamente sobre o tema, sem, contudo, solucionar o enigma.


Nesse ínterim, Guaramiranga, a antiga Vila da Conceição, destacou-se economicamente ao longo do século XIX devido à sua proximidade com Baturité, a cidade-polo, e por ter sido o tradicional local de veraneio das famílias proeminentes do Ceará. Desde então, a mídia divulga com justiça e ampla frequência os seus encantos, a sua exuberância paisagística quase idílica e a excelência do seu clima, amparados por uma respeitável infraestrutura turística criada para atender os visitantes. Por essas razões, Guaramiranga frequentemente reclama para si a primogenitura da ocupação da cumeeira serrana.


Historiadores e genealogistas eminentes e percucientes, como Pedro Catão e Vinícius Barros Leal, além de outros cronistas de escol, debruçaram-se exaustivamente sobre o tema, sem, contudo, solucionar o enigma.


Nesse ínterim, Guaramiranga, a antiga Vila da Conceição, destacou-se economicamente ao longo do século XIX devido à sua proximidade com Baturité, a cidade-polo, e por ter sido o tradicional local de veraneio das famílias proeminentes do Ceará. Desde então, a mídia divulga com justiça e ampla frequência os seus encantos, a sua exuberância paisagística quase idílica e a excelência do seu clima, amparados por uma respeitável infraestrutura turística criada para atender os visitantes. Por essas razões, Guaramiranga frequentemente reclama para si a primogenitura da ocupação da cumeeira serrana.


Ocorre que, nas proximidades da atual cidade de Baturité, ao pé da serra e a 140 metros de altitude, em 7 de outubro de 1735, o Tenente-Coronel Manuel Duarte da Cruz, o Sargento-Mor Lopo Barbosa Maciel e Pedro da Rocha Maciel receberam uma carta de sesmaria nos seguintes termos: 


"Três Léguas de terra no Riacho chamado Candeia que nasce na Serra Baturité e desaguando no Rio Aracoiaba e que eles suplicantes descobrira, terras lavradias".


A descrição textual indica claramente uma área plana de vazantes, sem fazer menção ao cume da serra. Até mesmo aqueles que possuem pouco conhecimento sobre a região constatam a inviabilidade de se atingir a cota de 400 metros de altitude por meio do vale do Candeia ou pelo riacho Sinimbu. Tal intento seria ainda mais improvável em 1735, haja vista a densidade da floresta que ordinariamente se formava com maior espessura a barlavento.


                  Conceição - Guaramiranga


De acordo com o resumo histórico de autoria do eminente pesquisador Dr. Licínio Nunes Miranda, a mim obsequiado, relata-se:


"Quando se estabeleceu na região, em fins de 1853, João Batista encontrou um deserto, havendo apenas ruínas e taperas de sítios antigos. No ano seguinte, construiu a primeira residência. Menos de dez anos depois, onde havia somente abandono, encontrava-se um povoado de trinta casas, sendo a maior parte coberta por telhas, ao contrário das palhas utilizadas em habitações mais pobres. Se havia um arremedo de civilização naqueles confins do Império de Dom Pedro II, era graças ao esforço de João Batista.


Nascido em Quixadá, em 28 de setembro de 1824, ele pertencia, pelo lado materno, à antiga família Queirós, que se estabelecera no Brasil ainda no século XVII. Numa viagem ao sítio Macapá, no alto da serra, pertencente ao seu tio, o tenente-coronel Antônio Francisco de Queirós, 'Jucá', João Batista descobriu a riqueza da plantação de café, que havia pouco se tornado o principal produto de exportação do país.


Sabendo da existência do sítio Guaramiranga, vizinho ao Macapá e abandonado por seus tios Bento Joaquim de Andrade e Francisca Teresa de Lima, decidiu comprá-lo em 26 de julho de 1853. A escolha fora motivada por razões que transcendiam as econômicas. Em 22 de julho de 1847, havia casado com sua prima Joana Antônia de Jesus (que adotou o nome de Joana Batista de Queirós Lima após o matrimônio), filha de Jucá.


Apesar de ser o fundador da cidade de Guaramiranga por ter povoado permanentemente a região, João Batista não foi o primeiro a se estabelecer no alto de Baturité. Em 1809, seu tio Miguel José de Queirós adquiriu um pedaço de terra desmembrado do sítio Macapá, denominando-o Conceição. Assim como os demais que viriam mais tarde, Miguel fora impelido a emigrar devido às secas devastadoras do sertão cearense.


Ao contrário de outras propriedades agrícolas no Ceará, as terras na serra do Baturité não eram provenientes de sesmarias concedidas pelos reis portugueses em tempos coloniais, mas sim adquiridas através de posses separadas por riachos.


Apesar de inúmeras tentativas, nenhuma das propriedades iniciais prosperou, sendo deixadas ao esquecimento. Até mesmo o pioneiro Miguel José, favorecido por invernos mais chuvosos, retornou às suas terras de criação de gado. Vendeu o Conceição para Francisco Félix que, endividado, revendeu-o para Vitoriano Correia Vieira, o qual, posteriormente, o transferiu a Francisco Pinto Brandão. É deste sítio que proveio o nome do vilarejo fundado por João Batista, que mais tarde se tornaria conhecido como Guaramiranga".


No que tange à gênese populacional de Baturité, incorre em manifesto e clamoroso equívoco o conspícuo Dr. Vinícius Barros Leal. Tal deslize projeta-se em sua obra de maior fôlego, A História do Baturité (Época Colonial). Os mesmos enganos verificam-se no compêndio Baturité – Subsídio geográfico, histórico e estatístico — este último, sabidamente, redigido pela pena de aluguel do Major Pedro Catão. O referido amanuense, operando como mero homme de paille e joguete literário, servia comumente de biombo aos interesses dos irmãos Alfonso e Theodor Boris. Estes pródigos financistas notabilizaram-se pela febril presteza com que estendiam "mãos amigas" aos agricultores da região do Baturité, sutilmente asfixiando-os em mútuos garantidos por propriedades rurais previamente depreciadas a valores que tangenciavam o ridículo. 


   "(...) Lá em cima, na parte mais elevada, correspondendo às localizações das atuais cidades de Mulungú, Guaramiranga e Pacoti, muito tardou a visita ou a instalação do colono branco. Na Conceição (Guaramiranga), deu-se a ocupação mais precoce, com a instalação do sítio Macapá pelo Capitão João Rodrigues de Freitas, ainda no século XVIII, nos anos finais dos setecentos (...)".

 

Contrario sensu do que afirmam os retroindigitados escritores, já em 1747, a localidade da Pindoba, situada em uma cota superior a 670 metros de altitude e circunscrita ao perímetro do município de Aratuba, era razoavelmente povoada. O local servia de residência ao Capitão Pedro da Rocha Maciel, à sua esposa, D. Maria da Rocha, e às filhas do casal. Lá também residiam Tomás da Costa Pereira e sua esposa, D. Maria Pereira da Silva, ambos com numerosa família. Todos eram brancos, conforme comprova a documentação coeva existente, a qual se mostra incontestável perante análises acadêmicas contemporâneas.


O ilustrado Dr. Vinícius Barros Leal em sua História do Baturité prossegue assim afirmando:


"(...) Há indício apenas de ter sido habitada essa zona por uma ou duas famílias de índios. Outro sítio na mesma zona, ocupado por Manuel Coelho Fraga, foi avaliado, em 1773, por doze mil e seiscentos réis. Às margens do riacho do Cedro instalou-se um colono em suas e outros mais, especialmente os da família Pimentel, potiguares que ficaram nas quebradas, mais ou menos na altura do atual Olho d'água dos jesuítas e do São Miguel, da família Arruda. Nas Bananeiras e Pindoba e, mais distante, na serra dos Cajuais, logo mais floresceram núcleos populacionais de relativa importância (...)".


Certamente, o autor desconhecia a exata localização do riacho do Cedro, visto que este se situava muito distante das "quebradas". Suas águas corriam nas cumeeiras da Serra de Baturité, nascendo na altitude do perímetro urbano do atual município de Aratuba, a 950 metros, a oeste do Sítio Coité. Dali, o riacho tomava o rumo nordeste, atravessando quase toda a extensão do antiquíssimo Sítio Flexeiras (situado a 850 metros de altitude e de propriedade do Capitão Antônio Ferreira da Cruz) e desembocando no riacho Canabrava, na altura do Sítio Araticum, já no município de Mulungu. Desse ponto, formava-se o riacho Nilo que, juntamente com o riacho do Meio, constitui um dos principais tributários do rio Putiú.


Torna-se, portanto, inviável sustentar a tese defendida pelo autor, quando assim afirma: 


"(...) No século seguinte, até 1820, pouco progresso houve no avanço serra acima. Depois desta data, no entanto, aconteceu verdadeira corrida, especialmente após a introdução do café, em 1824, coincidindo com a chegada de algumas famílias transplantadas de Quixadá, para o coração da serra. As famílias dos Queroses e Holandas foram estes desbravadores destemidos, muitos homens fortes e saudáveis. A tradição popular, até o começo do presente século, guardava a lembrança da tenacidade e energia desses homens corajosos e, sobretudo, portadores de um verdadeiro espírito de pioneirismo (...)".(sic)


Questiona-se: Como seriam eles os pioneiros ou desbravadores se o Capitão Antônio Ferreira da Cruz, em seu Sítio Flexeiras — descoberto por ele nos cumes da Serra de Baturité, a 867 metros de altitude —, já residia no local com sua numerosa família desde meados do século XVIII? Além dele, já habitavam as cotas superiores (a 850 metros), na Serra da Pindoba, os cidadãos Pedro da Rocha Maciel, Tomás da Costa Pereira, Francisco do Rego Barros, Agostinho Leitão, José Leitão, Leão Amorim de Sá, Inácio José Teixeira, Antônio José Moreira Gomes, Brás Ferreira e Vicente Rodrigues Chaves, todos acompanhados de suas respectivas famílias.


Essa área corresponde, atualmente, a sítios e localidades do município da Aratuba, tais como Flexeiras, Canoés, Segredo, São João, Aningas, Mundo Novo, Barreiros, Cantinho, Gameleira, Matas, Cuvico, Calembé (Calembre), Caipora e Tamanduá.


O Coité

Aratuba-CE.  Década de 80 transacta.

                          

Em oposição diametral às características orográficas da carta de sesmaria de 1735, outorgada ao Tenente-Coronel Manuel Duarte da Cruz, encontra-se a concessão feita a Teodósio de Pina e Silva, em 1736, a qual descreve com exatidão a paisagem de Aratuba, se vista do sopé de seu contraforte oriental:


"Diz Teodósio de Pina e Silva, morador nesta capitania, que descobriu um Brejo que nasce da Serra do Baturité da parte do poente, onde tem a dita serra uma abertura que mostra a pedra de cor amarela cujo brejo se chama, pela língua do gentio, Coité e tem o dito brejo pé grande de coité que corre para a parte do Rio Choró".


A "pedra de cor amarela" refere-se, indubitavelmente, a um dos muitos rochedos do cinturão granítico localizado nos contrafortes orientais do município de Aratuba, situado praticamente dentro de sua zona urbana. Ao avistar-se a serra, do nascente para o poente, no período matinal, a refração da luz solar no óxido de ferro das rochas produz a nítida impressão de um amarelo aurum vivaz.


Ademais, as encostas orientais da serra são consideravelmente menos íngremes do que as encostas ocidentais que dão acesso a Baturité. Mesmo sob vegetação secundária densa, divisa-se a exuberância de seus espécimes vegetais, e.g.: cedro-rosa, ipê-roxo, ipê-amarelo, açoita-cavalo, palmito-juçara, mulungu, oitizeiro e umbuzeiro.


Outrossim, o coité (Crescentia cujete), cujo fruto é amplamente utilizado na confecção de cuias, cantis e vasilhames improvisados, é uma árvore extremamente exigente. Ela frutifica em terras vermelhas, úmidas e ricas em matéria orgânica, sendo incapaz de suportar estiagens prolongadas — condições que lhe são negadas no ambiente árido do sertão, a sotavento da Serra de Baturité. Desse modo, somente nos cumes da serra, nas imediações da atual sede do município de Aratuba, esse "pé grande de coité" mencionado pelo sesmeiro poderia ser encontrado.


A evolução do topônimo Coité, que deu origem a Aratuba, deu-se paralelamente à criação do imóvel rural homônimo, do qual trataremos adiante. Assim, evidencia-se, de modo soberano e irrefragável, que Aratuba é a filha primogênita dos altiplanos do Maciço de Baturité.


As culminâncias da Serra de Baturité, em suas porções mais expressivas, foram ocupadas por sertanejos oriundos do sotavento, especificamente das ribeiras ressequidas do Cangati, Canindé, Batoque, Caxitoré e Curu, seguidos por migrantes vindos dos confins de Quixeramobim. A visão verdejante das cumeeiras, em contraste com os ressequidos sertões, fascinava profundamente o sertanejo.


A título de ilustração, transcreve-se abaixo uma procuração lavrada em Baturité, selecionada entre inúmeros documentos públicos da época pertencentes a moradores de Canindé, litteris:


"Procuração bastante que faz Ana de Freitas da Costa às pessoas declaradas = Saibam quantos este público instrumento de poder de procuração para sua validade e melhor nome haja dizer e chamar e possa virem que sendo o ano de nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil oitocentos e quatro, aos vinte e seis dias do mês de julho do dito ano nesta Real Vila de Monte Mor o Novo da América Capitania do Ceará Grande em meu escritório apareceu presente Ana de Freitas da Costa moradora no Sítio da Conceição ribeira do Canindé (...)".


Com efeito, os registros de terras realizados a partir da Lei Imperial nº 601, de 18 de julho de 1850, consignam inúmeras propriedades na Serra de Baturité cujos titulares declararam domicílio em Canindé. Tendo já vivido a maior parte de nossa existência neste "vale de lágrimas", recordamos que, no final da década de 1960 e início de 1970, costumávamos portar um copo de ágata para beber água em seis distintos olhos-d'água existentes na subida da ladeira. Esse trecho integrava a estrada que ligava Canindé a Aratuba, subindo pela rampa da Fazenda Marés. Ascendia-se à serra, a partir daqueles sertões, vindo-se da Fazenda Santa Cruz ou, alternativamente, pela ladeira denominada "Pedestres", assim batizada por servir a quem viajava a pé ou em lombo de animais.


Na retromencionada ladeira de Pedestres, demora uma paragem denominada Agonia — onde a imponência das formações rochosas comprimia aquela senda —, brotava outrora um manancial de águas copiosas de suntuoso fluxo. Para nosso profundo desalento, na contemporaneidade, não subsiste sequer um vestígio daquelas diletas fontes. Tudo feneceu na aridez do tempo, inclusive a hombridade e a altivez daqueles sertanejos.


À guisa de ilustração e resgate histórico, postamos doravante,  a nota que, a preço de ouro, fez publicar o nosso ilustre tetravô materno — insigne pater familias daquelas paragens —, o senhor Targino José de Goes. Tal postagem resplandece como testemunho inequívoco da retidão, do pundonor e dos escrúpulos inabaláveis que vicejavam entre os nossos antepassados.




A Fazenda Santa Cruz, de propriedade do Capitão Antônio Ferreira da Cruz, reveste-se de importância histórica por ter sido o local do primeiro casamento civil de Aratuba, registrado como o termo número um do Livro de Casamentos número um. Esse caminho constituía, ordinariamente, o percurso mais antigo a interligar a então próspera Vila de Baturité ao povoado de Canindé, em meados do século XVIII.


Outra via de acesso para transitar entre a serra e os sertões era a ladeira do Sítio Fernandes. Embora fosse bastante íngreme, tratava-se do trajeto mais curto, motivo pelo qual foi aproveitada para a implantação da atual rodovia CE-257, que interliga Aratuba a Canindé. Uma opção distinta consistia na senda percorrida a pé ou por montaria desde o Sítio Tope, atual distrito de Aratuba, até a extensa reta que cortava a Fazenda Longá, conduzindo à Fazenda Transvaal, ao largo da Serra do Pindá, nos arredores de Canindé. O mormaço infernal reinante nesse trajeto era extenuante, tornando a desidratação uma certeza. Por outro lado, o trajeto do Canindé a Baturité via Mulungu tornava-se praticamente inviável devido à alta inclinação da estrada do Camará. Partindo de Canindé, rumava-se ao nordeste em busca da Ipueira dos Gomes, seguindo no mesmo sentido rumo à Fazenda Serrote; dali, alcançava-se Mulungu através da escarpadíssima estrada do Camará em comento.


Apresenta-se aqui, em rápido esboço, a malha de caminhos que ligava os sertões aos píncaros da serra.


O Sítio Flexeiras e o Itinerário Aratuba a Baturité

 Casa grande do sítio Flexeiras após incontáveis reformas sécs XIX e XX
(O Sítio Flexeiras possui larga tradição na produção do Coffea arabica de alta pureza.)   


No que concerne ao papel de Coité nesse percurso, não havia itinerário natural mais curto, rápido e lógico para unir as duas mais importantes vilas da mesorregião — Baturité e Canindé — senão pelo roteiro descrito a seguir:


A partir de Aratuba, viajava-se em direção norte-nordeste até o Sítio Coquinho, ingressando na antiga estrada que ligava Aratuba a Mulungu, até alcançar o Sítio Aningas. Das Aningas, rumava-se a noroeste até a atual rodovia CE-065, quase na interseção com a estrada vicinal de acesso ao Sítio Segredo. Desse ponto, seguia-se no rumo nordeste, atravessando a porção central do Sítio Flexeiras, de propriedade do Capitão Antônio Ferreira da Cruz.  Prosseguia-se por uma trilha estreita até a divisa entre os sítios Flexeiras e Cantinho, este último originado do desmembramento do Sítio Araticum, propriedade antiquíssima de Francisco do Rego Barros, já habitada desde meados do Séc. XVIII. Dali, o caminhante seguia pelos sítios Gameleira e Matas até atingir o Sítio Pindoba, situado ainda no perímetro do município de Aratuba.


A distância da sede de Aratuba até a Pindoba por esse trajeto é de apenas 6,4 quilômetros. A partir da Pindoba, atravessava-se o rio Putiú, passando pela localidade de Bananeiras e, em sequência, pelo Sítio Jordão. Deste último, alcançava-se o centro da então Real Vila de Monte-Mor o Novo da América (Baturité) em um percurso de apenas 5,5 quilômetros. Trata-se, indiscutivelmente, do caminho de menor inclinação, mais curto e mais rápido.


 O CAPITÃO ANTÔNIO FERREIRA DA CRUZ, JR. 

Major João Pires Ferreira da Cruz
Neto do pioneiro Cap Antonio Ferreira da Cruz, Jr.
(*05/03/1856, Flexeiras  e  +29/09/1919, Flexeiras)


O Capitão Antônio Ferreira da Cruz, nosso quinto avô materno, nascido por volta de 1740, era natural das várzeas do Rio Capibaribe, (atual bairro da Várzea, em Recife, Pernambuco). Era filho de Manuel Ferreira da Cruz, nascido c.1695, natural da região raiana de Verín, e de Teresa Maria de Jesus nascida nas várzeas do Capibaribe, atual bairro da Várzea da capital pernambucana. O Capitão Antônio Ferreira da Cruz casou-se com a potiguar Caetana Maria dos Reis, filha legítima de Caetano de Oliveira e Rufina Antunes de Abreu, ambos naturais da Cidade dos Reis, no Rio Grande do Norte. Deste consórcio nasceu o Capitão Antônio Ferreira da Cruz, Jr, em Baturité, Ceará aos 10 de dezembro de 1777, vindo a falecer em seu Sítio Flexeiras, em Aratuba, aos 8 de dezembro de 1853.


O Capitão Antônio Ferreira da Cruz Júnior fruía de vultoso cabedal, mui lesta e opulenta fazenda, senhoreando vastos domínios que tomavam fôlego nas paragens do Giqui, hoje distrito de Jaguaruana, Ceará, sito na margem levante do flúmen Jaguaribe — e se alongavam por diversas possessões encravadas nos lindes e termos das hodiernas municipalidades de Choró, Canindé, Paramoti, Caridade, Itapiúna, Aratuba, Mulungú, Guaramiranga e Baturité.


Não sem mui ponderada razão, houve-se por bem efetuar o seu inventário na vila do Canindé; porquanto achavam-se os herdeiros assaz precavidos e acautelados contra os tributos e dízimos da Fazenda.


AS FLEXEIRAS

     Engenho e aviamento do Sítio Flexeiras. Aratuba-CE.
     Uma das mais antigas edificações rurais da Aratuba


Experimento magnum gaudium ao transcrever, de forma literal e inédita,  o registro de uma das mais antigas propriedades daquela região: documento que, possivelmente, atesta a primazia da ocupação do mais antigo habitante dos cumes do Maciço de Baturité:


"Escritura de venda de parte de um sítio de terras de plantar que faz o Alferes Antônio Ferreira da Cruz, morador nas Flexeiras, a Francisco do Rego Barros, morador no Araticum, como abaixo declaram: 


Saibam quantos este público instrumento de escritura de venda virem e para sua validade e melhor nome haja dizer e chamar e possa virem, que sendo o ano de Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil oitocentos e quatro, aos sete dias do mês de julho do dito ano, nesta Real Vila de Monte Mor o Novo da América, Capitania do Ceará Grande, em meu escritório, apareceram presentes as partes contraentes, outorgantes e bastantes, a saber, o Alferes Antônio Ferreira da Cruz, morador no sítio Flexeiras, Serra da Pindoba, como vendedor, e como comprador, Francisco do Rego Barros, morador no Araticum, termo desta Real Vila, próprios de que faço menção, pessoas que as reconheço maiores de vinte e cinco anos, de que dou minha fé por eles, e me foi dito diante da presença das testemunhas adiante no fim deste nomeadas e assinadas que, entre os mais bens que possuía de mansa e pacífica posse e bens de raiz sem contradição de pessoa alguma, ele é senhor e possuidor de uma sorte de terras de plantar no lugar Flexeiras, termo desta Vila, o qual sítio extrema na parte de cima com uma lagoa, alcançando três pés de limoeiro, indo extremar no riacho que lhe atravessa, vindo do sul até um pé de jatobá que fica adiante, com todas as suas matas, fruteiras, olhos-d'água, riacho que se acham no dito sítio e casa de vivenda, entre as demais casas, com todos seus pertences por uma outra parte do rio, o qual o dito vendedor havia por descobrimento, e que ele vendedor vendia, como de fato vendido tinha de hoje e para sempre, a Francisco do Rego Barros pela quantia de quinze mil réis em dinheiro descontado em moeda corrente deste Reino de Portugal, o qual já havia recebido da mão do dito comprador, de que eu tabelião dou fé por ter ouvido e declararem os ditos vendedor e comprador, e que lhe dava plena e legal quitação de pago, para que em tempo algum lhe seja mais pedida, para si e outros herdeiros ascendentes e descendentes que após deles vierem, e que do dado sítio pode o dito comprador tomar posse por si ou por autoridade de justiça, quer a tome, quer não, havia desde agora a posse natural, corporal, cível e real; pela cláusula constante omitia de si toda a posse, domínio e útil usufruto que no dito sítio tinha e podia ter, de si apartava, transferia e ratificava da pessoa dele comprador para que goze e possua como dele ficava sendo de hoje e para sempre pela dita venda e compra que era feita sem constrangimentos de pessoa alguma. Mais foi dito pelo dito vendedor que se obrigava por sua pessoa e bens havidos a manter o comprador a salvo de toda e qualquer dúvida contra a validade desta escritura..."

 

A formulação da referida Lei Imperial de 1850 teve como propósito regularizar os imóveis possuídos por título de sesmaria que não houvessem cumprido as exigências legais. Esse cenário correspondia à quase totalidade das terras situadas nos perímetros municipais localizados no cume da Serra de Baturité, a exemplo da sesmaria número 57, datada de 17 de novembro de 1736, pertencente a Teodósio de Pina e Silva.


Transcreve-se o registro número 58:


"Manuel Ferreira da Cruz[1] possui na serra desta Freguesia do Baturité um sítio denominado Flexeiras, no sentido do dorso, que houve por herança do seu finado pai Antônio Ferreira da Cruz, extremando da parte do Norte com terras dos herdeiros de Manoel José Martins, e da parte do Sul com Antônio Alves de Barros, da parte do Poente com Manoel Saraiva Leão e da parte do Nascente com João José D'Almeida. Baturité, 25 de fevereiro de 1856. Manoel Ferreira da Cruz. Vigário Raimundo Fernandes Ribeiro".


[1] O Coronel Manuel Ferreira da Cruz, nosso trisavô materno, era filho legítimo do Capitão Antônio Ferreira da Cruz Júnior e de Dona Josefa Maria da Conceição.  Nasceu aos 27 de novembro de 1802, no Giqui (atual Jaguaruna), localidade que, à época, pertencia à freguesia de São Bernardo de Russas. Casou-se aos 8 de outubro de 1832, na Matriz de São Francisco das Chagas do Canindé, com Joana Pires Chaves, filha legítima de Joaquim Pires Chaves e de Dona Catarina Francisca do Espírito Santo. O Coronel Manuel Ferreira da Cruz faleceu em sua Fazenda Santa Cruz, em Canindé, no dia 13 de abril de 1887.

 

O Sítio Araticum 


O Sítio Araticum revestia-se de dimensões imensas, englobando os atuais sítios aratubanos de Cantinho, Lagoa, Japão, Souza, Silva e Matas, além de abranger, no município de Mulungu, o distrito de Catolé e o sítio homônimo. Uma escritura datada de 16 de julho de 1804 formalizou a venda de uma parte dessas terras por Francisco do Rego Barros a Agostinho Leitão, na Real Vila de Monte-Mor-o-Novo da América.  Do mesmo modo, em 24 de maio de 1804, Antônio da Costa Vieira, residente na Serra da Uruburetama, alienou um sítio de terras de plantar a João Teixeira da Silva, residente na ribeira do Canindé.


Ressalta-se que, no Brasil Colonial, a legislação estipulava a idade mínima de 25 anos para a realização de transações imobiliárias de compra e venda. É digno de nota que os contratantes fossem naturais de regiões diversas, como Uruburetama e Canindé, o que demonstra a intensa mobilidade dos moradores da época, de forma bem diferente do que se presume.


Caminhos Antigos

                                               Sítio Pindoba


A antiga estrada que ligava Canindé a Fortaleza acompanhava o curso dos rios Canindé e Curu, estendendo-se a jusante até a atual cidade de São Luís do Curu.  Daquele ponto, infletindo à esquerda (oeste), tomava-se o rumo de Uruburetama e São Francisco, atual Itapajé. Não é por outra razão que o Sargento-Mor Francisco Xavier de Medeiros, instituidor do patrimônio e principal idealizador da devoção a São Francisco das Chagas em Canindé, era originário de São Francisco da Uruburetama. Para alcançar Fortaleza, os viajantes seguiam na direção leste, cruzando os atuais territórios de Croatá e São Gonçalo do Amarante.


Verifica-se, ademais, que o antiquíssimo Sítio Pindoba em Aratuba com sua capela, já contava com sucessivas transmissões de propriedade muito antes de 1804. Não havia urgência para o sertanejo — que buscava mitigar os efeitos da seca e salvar o seu rebanho — em subir a serra pela face voltada a barlavento, ou seja, pela vertente de Baturité. As pastagens situadas ao pé da serra eram amplas e formidáveis, banhadas por mananciais como os rios e riachos Castro, Curimatã, Boa Vista, Do Padre, Lagoa Nova, Putiú, Jordão, Nilo, Aracoiaba e Candeia, os quais dessedentavam o gado. Paralelamente, expandiam-se os canaviais destinados a abastecer os numerosos engenhos que produziam açúcar, rapadura, alfenim e mel, enquanto as casas de farinha operavam continuamente, tornando a farinha de Baturité uma das mais disputadas nos sertões central e setentrional do Ceará. Em contrapartida, os sertões forneciam couro, leite, queijo, carne-seca e algodão. Na vertente oposta, a sotavento, voltada para o sertão, o Maciço de Baturité exibia encostas áridas e brutalmente severas.


Diante da fonte primária falece a lenda


Perpetuou-se em Aratuba a narrativa tradicional de que o Sítio Coité, núcleo inicial da sede municipal, fora fundado pelo Capitão João José Pereira, o qual teria se estabelecido no local em 1829, acompanhado de dez escravizados. Contudo, não há sequer uma evidência documental que confirme esta hipótese, muito menos a patente a ele atribuída.


João José Pereira nasceu em 1795, sendo o quinto filho de José Antônio Pereira e Antônia Maria do Carmo Ferreira. Casou-se, em primeiras núpcias, com Felicidade Maria da Purificação e, posteriormente, com Francisca do Carmo Pereira, filha de José Joaquim Pereira Leite e Josefa Maria do Carmo.


No tocante à fundação daquela urbe, cronistas de feição menos rigorosa tentaram impor a ficção historiográfica de que a ilustre família Pereira, oriunda de Cascavel e fixada às margens do Cangati, teria sido a pioneira na ocupação de Aratuba. No entanto, o exame de documentos oficiais demonstra que os pioneiros anteriormente citados antecederam em muito a chegada de João José Pereira. Cumpre salientar que tais pioneiros nasceram antes de 1779, haja vista a exigência legal da maioridade de 25 anos para a prática de atos cíveis no Brasil colônia.


No Álbum do Congresso Eucarístico de 1945, Arlindo da Cunha Medina assevera que a família Pereira fixou-se em Aratuba no ano de 1829. Todavia, o exame minucioso dos arquivos cartoriais e eclesiásticos do início do século XIX não revela qualquer elemento que embase tal afirmação, nihil ex nihilo existit. Se os Pereiras se estabeleceram ali naquele ano, por certo encontraram o casal Pedro de Barros e Clara Maria já radicado na localidade, visto que a filha destes, Josefa, nasceu no Coité em 15 de dezembro de 1825, tendo sido batizada na Matriz de Nossa Senhora da Palma, em Baturité, aos 18 dias do mesmo mês.


A análise das fontes primárias afasta em definitivo o mito de que o referido capitão teria sido o edificador do Sítio Coité. O inventário aberto em 7 de novembro de 1855, em razão do falecimento de João Amaro Abade (ocorrido em 4 de outubro de 1841 sem deixar testamento), aponta como inventariante e meeira sua viúva, D. Joana Peregrina de Santiago — mulher letrada que firmou suas declarações de próprio punho. O casal era residente no Sítio Coité, bem nos píncaros da Serra de Baturité. Filhos do casal: 


    1. José Amaro de Araújo (casado);
    2. Francisca Maria (casada com Francisco Barroso);
    3. Maria Francisca (casada com Martinho Luís de Medeiros).
    4. Ana Rosa (casada com Luis Barroso de Sousa);
    5. Isabel Maria (casada com João Antonio Nogueira);
    6. Antonia Maria (casada com Anastácio José Nogueira);
    7. Úrsula Maria da Conceição (solteira de 23 anos);
    8. Josefa Maria (solteira de 22 anos);
    9. Maria Joana (solteira de 18 anos);
    10. Teresa Maria de Jesus (solteira de 14 anos).


Ao deslindar as idades de alguns dos filhos do casal em 1855, estimando a média de dois anos e meio entre o nascimento dos rebentos e considerando que João Amaro Abade possuía 20 anos quando de seu casamento, teríamos sua natividade para 1770, aproximadamente. Portanto, ele seria pelo menos 25 anos mais velho do que o Capitão João José Pereira, nascido em 1795 e, conforme o insigne genealogista Raimundo Torcápio aduzia. Uma geração inteira!


Após tantas discussões, inúmeras querelas e incontáveis disputas por mais de 150 anos, temos a honra de reconstruir a imagem histórica de Aratuba em seus primórdios após compulsar o documento transcrito abaixo, de importância capital para a historiografia daquela cidade: A certidão de nascimento da Aratuba.


Este é um documento que clama para ser apregoado em local de destaque no mais distinto edifício do poder público aratubense. Vejamos a declaração da meeira e inventariante, D. Joana Peregrina de Santiago, quanto ao bem de raiz, o Sítio Coité, avaliado em 500$000 (quinhentos mil réis)[1].


“Declarou a inventariante e meeira haver de seu casal uma légua de terra no riacho Coité que houveram por compra que extrema da parte do nascente com uma gameleira com terras de Manoel Felipe Castelo Branco, na parte do poente com Matias Gomes de Matos, numa cachoeira grande, da parte do norte com Antonio de Barros, Florêncio Cavalcante e Romualda, da parte do sul com Bernardo de tal[2]. e Antonio Marculino com todas as suas águas. Sendo a metade seca e a metade murchada que foi avaliada na importância de quinhentos mil reis, sendo a terra fresca que digo na importância a uma légua fresca de quatrocentos e cinquenta mil reis que vão a margem. Avaliada uma légua seca  na quantia de duzentos mil reis que vão a margem.

Declarou mais a inventariante que dessa terra que deu a descrição no lado de cima na extrema da cachoeira grande vendeu uma pequena parte a José Leonardo pelo preço de dez mil reis e junto ao mesmo pedaço vendeu outra porção dessa mesma terra pela quantia de duzentos mil reis a José Cavalcante sendo as extremas da pequena parte a José Leonardo. Seguintes: Da parte de baixo da cachoeira grande, da parte de baixo no lombo de um alto que vem da parte do nascente onde faz barra no riacho de Manoel Gomes só por uma banda do riacho Coité para o lado do nascente ficando a mesma inventariante com a mais terra que tenm na linha da serra para oura banda, digo, com a mais terra que tem por detras do alto, sendo a extrema da segunda venda feita a José Cavalcante da parte do poente onde faz barra com o mesmo riacho do Manoel Gomes, extremando com outro comprador José Leonardo, da parte do nascente entre duas pedras que no meio tem um pé de cajazeira, contando dali rumo direito a linha da primeira serra que se encontrar para a banda do nascente com as águas que dependem para dentro da mesma terra, da parte do norte entre os riachos do dito Manoel Gomes e da Romualda, com as águas que correm da linha de uma serra que fica na frente da parte norte para a terra vendida, e da parte sul extrema com terras do primeiro comprador José Leonardo”. 


A análise desse documento permite reconstituir a geografia de Aratuba em seus primórdios, funcionando o inventário como a verdadeira certidão de nascimento do núcleo urbano de Coité.


No rol de bens de raiz, descreve-se o Sítio Coité, avaliado na expressiva quantia de 500$000 (Quinhentos mil réis)[1]. A inventariante declarou possuir uma légua de terras no riacho Coité, adquirida por compra, cujos limites confrontavam:


Ao nascente: Com uma gameleira nas terras de Manuel Felipe Castelo Branco (nosso sexto avô materno);

Ao poente: Com as terras de Matias Gomes de Matos, junto a uma grande cachoeira;

Ao norte: Com as propriedades de Antônio de Barros, Florêncio Cavalcante e Romualda;

Ao sul, com as terras de  Bernardo de tal[2] e Antônio Marculino, incluindo todas as águas respectivas.


[1] Vultosa monta àquela época. Para se ter uma ideia do valor desta propriedade — mesmo considerando sua avaliação venal para efeito de inventário em questão, o Sítio Guaramiranga, o mais importante e proeminente daqueles cumes, foi vendido em 26 de julho de 1853 por 200$000 (duzentos mil reis). Sendo os vendedores: Francisco Xavier da Cruz e Francisco Alves Pinheiro, e o comprador: João Batista Alves de Lima. Como parte do pagamento o comprador pagou à vista 180$000 (Cento e oitenta mil réis) mais 15 vacas paridas sendo cada vaca no importe de 1$000 (Um mil réis).

[2] Quanto a "Bernardo de Tal", trata-se de Bernardo Ribeiro Campos, apud o registro de terras de Baturité nº 1.761, de 23 de janeiro de 1858. Bernardo nasceu em meados de 1801, em Quixeramobim. Ele era bisneto do sesmeiro e doador do patrimônio da Capela de São Gonçalo do Umari, o português de Lousada, o Tenente Coronel Manuel Ribeiro Campos, consorciado com Ana Maria Soares de Pambu, Bahia.


O imóvel em tela estendia-se até a confluência com o riacho de Manuel Gomes por uma das margens do riacho Coité, voltada ao nascente. A inventariante retinha as terras situadas na linha da serra, na vertente oposta. A segunda gleba, alienada a José Cavalcante, limitava-se ao poente pela barra do riacho de Manuel Gomes e, ao nascente, confrontava com o comprador José Leonardo, entre duas pedras marcadas por uma cajazeira, estendendo-se em linha reta até a cumeeira da primeira serra. Ao norte, situava-se entre os riachos de Manuel Gomes e da Romualda; ao sul, dividia com as terras do sobredito José Leonardo.


Em 1858, ao registrar sua meação no livro de registro de terras de Baturité (sob o número 1.761), a viúva Joana Peregrina da Silva Santiago apontou os proprietários mais remotos do Sítio Coité, in litteris


"Joanna Peregrina da Silva Sam Tiago possui na Freguesia de Baturité um sítio denominado Coité, que houve por compra ao Senhor João Nunes da Rocha[1] e Francisco Coité[2], extremando da parte do Nascente com terras de José Alexandre Castello-branco; pela parte do Poente com terras d'Antonio Ribeiro de Salles, de uma banda do riacho, e da outra parte com Justino de Meneses; da parte do Sul com terras de Bernardo Ribeiro Campos, e o Tenente Coronel André Epiphanio Ferreira Lima; e da parte do Norte com terras de Francisco da Costa, e Florencio Uchoa Cavalcante. Baturité, 23 de Janeiro de 1858. Joanna Peregrina da Silva Santiago".


[1] João Nunes da Rocha casado com Maria José de Jesus, ele pernambucano natural de Vitória de Santo Antão, filho legítimo de Manoel Nunes Viana e Maria José de Jesus, igualmente pernambucanos e daquela mesma freguesia. Casado que foi com Josefa Maria natural do Baturité, filha legítima do Sgt Mor José dos Santos Silva, português do Porto, freguesia de São Pedro de Rates e Ana Ferreira natural da freguesia do Aquiraz.

[2] Francisco Alexandre Coité  casado com Ludovina Maria da Conceição. Damos notícia desta parelha nos assentos de batismos das filhas, Rufina em 1848, Maria em 1855, outrossim apadrinhando o párvulo Francisco, índio em 1849, todos na Matriz de Nossa Senhora da Palma no Baturité.  


Fora o Coité durante anos um modesto local de pouso e paragem ao longo da movimentada estrada que ligava Baturité a Canindé, assemelhando-se a tantos outros núcleos situados nos altos daquela serra. O povoado ganhou impulso definitivo apenas após a ereção de sua Igreja Matriz, oportunidade em que as ordens religiosas introduziram a civilidade e os fundamentos da instrução pública, conciliando a evangelização ao desenvolvimento moral e educacional da comunidade.

 

 Memórias e Conclusão


Diferentemente de outras localidades, a área ocupada pelo Sítio Coité — que abrangia quase a totalidade da zona urbana da atual Aratuba — distinguia-se pela abundância de recursos hídricos.


Em tempos recentes, a bordo de uma motocicleta de trilha devidamente preparada, realizamos a subida pelo Candeia de Cima até Pacoti, trajeto que se configura como uma das escaladas mais difíceis da região devido às inclinações frequentemente superiores a 40°. Igualmente, partíamos de Baturité pela Estrada das Correntes, cujos terrenos de massapê argiloso impunham severas dificuldades de tração. Seguindo no rumo oeste, alcançávamos os sítios Bagaço, Palmas, Flor e Videl, estendendo o percurso até a zona urbana de Mulungu. Transpúnhamos os riachos Santa Maria e Nilo, interceptando a rodovia CE-065 no distrito de Lameirão, em Mulungu. Na vertente ocidental, percorremos todas as principais ladeiras e trilhas, incluindo o complexo trajeto que interliga Pacoti a Itapebussu através da localidade de Gado dos Ferros.


Estamos convictos de que, até o presente momento, nenhuma obra historiográfica dedicada à primogênita do Maciço de Baturité reuniu tamanho rigor documental e força elucidativa.

 

Bibliografias citadas:


Álbum do Congresso Eucarístico, Baturité, Aratuba, Mulungu. [s. n.].1945.

Arquivo Cartorário de Baturité. – Vários Tomos. Baturité

Arquivo Municipal Doc Históricos e Gestão pública. Pesquisa documental.

Catálogo de Docs Manuscritos Referentes à capitania do Ceará existentes no Arquivo Histórico Ultramarino de Lisboa.  Lisboa, Portugal. Jan. 1998

CATÃO, Pedro. Memória histórica, geográfica e estatística de Baturité. RIC. Fortaleza-CE. 1916

FEITOSA, Neri – De Cuhité (Sesmaria) a Aratuba. [s. n.]. 2011

LEAL, Vinícius Barros. História de Baturité Época Colonial. Secretaria de Cultura e Desporto. Fortaleza-CE. 1981.  


Experimento gaudium magnum em fazer desta singela postagem humílimo preito de gratidão ao meu amigo, o Revdmo. Pe. Neri Feitosa, uma das maiores erudições da história e genealogia cearense, senão a maior.


Finis coronat opvs



Brasília-DF 

200127ZAGO22SAB 

Clovis Ferreira da Cruz Ribeiro de Campos Lobo.